Nas redes sociais, viceja um fenômeno memorial da maior importância para a cidade

Sérgio Botelho – Tenho dito e repetido que João Pessoa é um verdadeiro museu a céu aberto. Digo isso por dois motivos: primeiro, porque é a terceira cidade oficialmente criada no Brasil, o que ocorreu em 5 de agosto de 1585; depois, porque, apesar de todos os pesares, ela continua com um Centro Histórico razoavelmente preservado.

Nesse sentido, é forçoso reconhecer que o poder público, com especial atenção nos últimos anos, vem empreendendo um esforço preservacionista louvável, e que já apresenta resultados positivos. Não são poucos os prédios antigos restaurados e requalificados, garantindo sua reativação.

Ao mesmo tempo, convém também registrar um fenômeno novo que vem se multiplicando no ambiente digital, com destaque para as redes sociais, que tem se tornado território fértil para iniciativas memoriais que celebram, documentam e reivindicam esse patrimônio.

O que se observa nessas iniciativas é algo que ultrapassa a nostalgia. Trata-se, na minha visão, de um ato político e cultural, no sentido mais nobre: cidadãos comuns, fotógrafos amadores, historiadores, arquitetos e simplesmente apaixonados pela cidade assumindo para si a responsabilidade de guardá-la.

Imagens antigas de ruas e das fachadas do Centro Histórico circulam nessas páginas com poder de comoção extraordinário. Não são apenas registros: são prova de existência de uma cidade que muda rapidamente e que, como tudo o que se moderniza, corre o risco de esquecer o que foi.

Nos comentários dessas postagens, emerge um fenômeno precioso: a memória coletiva se reconstituindo em tempo real. A foto de uma padaria desaparecida, por exemplo, tem o condão de evocar nomes de proprietários, receitas, cheiros, e até episódios familiares.

Eu creio que há ganhos de conhecimento e consciência poderosos nesse processo, pois ao ver sua cidade celebrada, o pessoense desenvolve um senso de pertencimento e orgulho que se converte, naturalmente, em atitude preservacionista altamente necessária, no cotidiano.


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