O escritor João Batista de Brito nos brinda, no Facebook, com o conto “Desatino”, que traz à tona um turbilhão de emoções e questionamentos existenciais através da vida de Sofia. A narrativa nos transporta para um cenário onde a realidade é subitamente alterada, criando um contraste entre o amor perdido e a rotina imposta. A magia e a perplexidade do reencontro com Marcelo, o amor de sua vida, fazem Sofia questionar sua sanidade e, ao mesmo tempo, abraçar a felicidade inesperada. No entanto, a reviravolta final deixa a dúvida sobre o que foi real e o que foi sonho. Uma história que nos faz refletir sobre os caminhos da vida e as escolhas que nos são impostas.
DESATINO
João Batista de Brito
O dia amanhecia quando Sofia acordou. Não ouviu o habitual e desagradável ronco do marido e estranhou. De todo jeito, sem nem olhar de lado, levantou-se e foi cuidar da cozinha, como sempre fazia. Daí a pouco Hermenegildo iria aparecer no corredor, apressado, em direção ao banheiro.
Não apareceu. Ela já aprontara o café, e nada. Estaria doente? Era melhor ir ao quarto checar.
Por debaixo do lençol de casal, nada de ronco, só um suave ressonar. Chamou, lembrou o horário, e nada. De mansinho, foi puxando o lençol e… Meu deus do céu, o que estava acontecendo? Não era Hermenegildo que ali estava: era Marcelo. Sim, Marcelo de carne e osso, que abriu os seus belos olhos castanhos, ergueu a cabeça e a beijou com ternura.
E o mundo deu mil voltas na cabeça de Sofia. O que era aquilo? Estaria enlouquecendo?
Marcelo havia sido o seu grande amor no passado, o jovem pobre que sua família rejeitara, e, no lugar, impusera o mais maduro e mais abastado Hermenegildo. Num tempo em que casamentos eram decididos pelas famílias, Sofia, sem idade nem forças pra reagir, fora obrigada a aceitar a dura separação, e mais tarde, o casamento sem amor…
Tudo acontecera sete anos atrás e ela, já acostumada à fria rotina da vida de casada, achava que havia esquecido o maior amor de sua vida.
O filme todo passou em sua mente naquele instante, porém, ninguém podia negar o que seus olhos estavam vendo, o que suas mãos estavam tocando – era Marcelo que estava ali, em seu leito conjugal. Foi ele que dormiu ao seu lado, foi ele que a beijou e, agora mesmo, sem muita pressa, levantava-se e se dirigia ao banheiro.
Confusa, Sofia o viu voltar do banho, sentar-se à mesa e, alegre e tagarela, tomar o café que ela preparara. Como se aquilo ocorresse todo dia…
Sem nada poder contra aquele desatino – sim, só podia ser desatino! – foi aceitando a situação e tentando agir com naturalidade.
Depois do café, Marcelo, o seu Marcelo amado, trocou de roupa, deu-lhe um beijo, e, como se fizesse aquilo todo santo dia, saiu para o trabalho. Deixada a sós, Sofia estirou-se no sofá, como se para recuperar-se do susto.
Mas o susto persistia.
Foi então que notou que a casa inteira estava diferente. Era outra. O gabinete de Hermenegildo não existia – era uma sala comum, com alguns objetos novos que certamente a Marcelo pertenciam. O guarda-roupa era outro e tinha, não mais as sisudas vestimentas de Hermenegildo, e sim, as roupas leves de Marcelo.
Na sala de estar, por sobre a cômoda, estava um porta-retrato que dizia tudo: mostrava, a foto não do casamento dela e Hermenegildo, mas sim, o dela e Marcelo, lado a lado, de mãos dadas, nubentes exultantes.
Bem, desatino ou não, não havia outra coisa a fazer, a não ser abraçar de bom grado essa nova situação, tão mágica, tão sublime, tão impossível e, ao mesmo tempo, tão possível.
E assim, decorreu o resto do dia.
Ao meio dia Marcelo voltou para almoçar. Comeram juntos, conversaram amenidades, Marcelo contando os atropelos na loja onde trabalhava, ele sempre falando mais que ela. Ela, embevecida, escutando aquela voz macia e quente a que seus ouvidos não estavam acostumados.
Por vezes, Sofia sentia vontade de perguntar o que estava acontecendo, de indagar algo que conduzisse a uma reação de Marcelo, uma reação que explicasse o que precisava ser explicado, porém, não tinha coragem de fazê-lo, quem sabe, talvez no fundo com receio de quebrar a magia.
A sesta foi feita no terraço, o casal aconchegado numa rede, entre afagos e palavras de carinho. Depois do que Marcelo aprontou-se novamente e voltou ao trabalho. Como esperado, retornou à noitinha e jantaram no mesmo clima de fruição mútua.
Prazer maior foi quando se recolheram ao leito e fizeram amor, um amor enlouquecedor como Sofia nunca experimentara em toda a sua insossa existência. E adormeceu apaziguada com a vida.
No dia seguinte acordou perturbada, com a impressão de ter ouvido um certo ronco familiar. Virou-se de lado, e lá estava, em sono profundo, a boca entreaberta, a saliva escorrendo, Hermenegildo.

