
Uma dessas ruas, que serviu de cenário para o imperador Dom Pedro II iniciar seu desfile pela cidade, em 1859, guardou para sempre seu nome de origem, apesar da tentativa de substituição da alcunha que lhe deu o povo pelo título de um ilustre nobre imperial, o Barão da Passagem. Não colou.
Contudo, se manteve o nome afetivo original, não conseguiu conservar a relevância que já teve, a partir de quando fez parte das soluções urbanas encontradas para reduzir o esforço na subida da cidade baixa para a alta.
Estou falando da Rua da Areia, que foi da opulência à precariedade, entre os Séculos XIX e XX. No XXI a via já ingressou absolutamente despojada de seu brilho de outrora.
Ainda exibindo uma estrutura física precária, quando as chuvas castigavam João Pessoa, a terra descia a rua para se acumular na sua parte baixa. Daí, então, Rua da Areia.
Ao longo do tempo, foi endereço de empreendimentos marcantes na vida econômica pessoense, a exemplo da fábrica de vinhos de caju Tito&Silva, das indústrias de bebidas gasosas de Sidney Dore.
Mas também da icônica Água Rabelo, da Fábrica de Cigarros Popular e do escritório da Prensa de Abilio Dantas. A Casa do Estudante da Paraíba ainda hoje funciona na Rua da Areia.
Além disso, a rua abrigou sobrados, negociantes, senhores de engenho, consulado, festas de carnaval, cantadores ambulantes, boemia, ruínas e políticas de preservação.
Em poucas ruas de João Pessoa se vê tão claramente a passagem do tempo. A rua da Areia não é apenas uma rua antiga. É um retrato pungente, em pedra, cal, areia, abandono e memória da cidade.
*Sérgio Botelho é jornalista e escritor.
(Na foto, a Rua da Areia em 1902)
