Banalidade Sapiente, por Hildeberto Barbosa Filho

Sérgio Botelho – Em seu mais novo texto na persistente coluna “Pensamentos Provisórios”, regularmente publicada no Facebook, o acadêmico Hildeberto Barbosa Filho celebra a sabedoria encontrada na banalidade, destacando como as atividades cotidianas não são apenas necessárias para a vida prática, mas também oportunidades para reflexão, inspiração e compreensão filosófica. O autor sugere que há uma “banalidade sapiente” nas tarefas rotineiras, e que essas ações simples podem ser fonte de inspiração e contemplação.

Banalidade Sapiente

Spinoza, ao polir as lentes, filosofava. Dizem que a arte de pensar, Aristóteles desenvolveu, caminhando. Kant gostava de refletir e fazer a crítica (pura, prática e do juízo), mesmo na hora das refeições. Nada disso me surpreende. O pensamento é o milagre maior do homem e não está dissociado de suas experiências mais triviais. Não há somente uma doce banalidade, aberta ao fluxo do prazer nos hábitos ordinários. Há, quero crer, uma banalidade sapiente, que nos convoca, gratuita e espontaneamente, para o gozo da meditação. Para o conforto da paz e do relaxamento. Fazer certas coisas me acalma e me ativa a máquina do pensamento. Coisas simples, do dia a dia, sem as quais, pelo menos eu, não passaria. Ideias, imagens, versos, poemas me vêm, por exemplo, quando faço o asseio das gaiolas, varro o quintal, organizo o lixo, lavo a louça, cuido do jardim. Não cozinho, mas sei que cozinhar é uma arte ancestral, um rito de passagem, um saber que tem tudo do sabor, uma pedagogia do acolhimento. Não exagero em imaginar que alguma nesga filosófica ou algum fluido poético presidem secretamente o conteúdo de ações como essas. A rotina também é sagração“.


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