Amizades e revoluções na Paraíba, por Evandro da Nóbrega

Amizades e revoluções na Paraíba, por Evandro da Nóbrega

Jornalista e historiador Evandro da Nóbrega

Sérgio Botelho – O texto, ora reproduzido no Para Onde Ir, intitulado A AMIZADE ENTRE O HISTORIADOR ECONÔMICO LUIZ PINTO E O FUTURO PRESIDENTE DA REPÚBLICA CAFÉ FILHO, foi postado pelo renomado jornalista e historiador Evandro da Nóbrega, no Facebook, em adendo a um post que fiz sobre o tempo em que o ex-presidente Café Filho, sem nem sonhar que um dia governaria o Brasil, residiu em João Pessoa, então Parahyba.

A narrativa de Nóbrega (que nos dá notícia do próximo lançamento do livro “Um Homem em Defesa do Nordeste – Plínio Lemos: Sua vida, obra e legado”, de Eduardo Jorge Lira Bonates), repleta de minúcias e conexões surpreendentes, revela como os fios da história se entrelaçam em meio a revoluções, lealdades e encontros fortuitos.

Ao abordar a amizade entre o historiador econômico Luiz Pinto e o futuro presidente Café Filho, o autor não apenas resgata episódios esquecidos, mas demonstra como relações pessoais moldaram trajetórias públicas.

O texto também expande seu olhar para outros personagens-chave, como Juarez Távora e Plínio Lemos, cujo encontro acidental nas Espinharas poderia ter descambado em conflito, não fosse a intervenção do diálogo. A descrição do clima tenso em Patos, com jagunços ameaçando a cidade e planos de invasão a Campina Grande, transporta o leitor para a ebulição da época. A mediação entre Távora e Lemos, seguida de uma amizade duradoura, reforça a ideia de que mesmo em tempos de guerra, a humanidade prevalece.

A menção ao livro de Bonates, já referido, adiciona camadas ao relato. A obra, que promete lançar luz sobre a trajetória do promotor transformado em líder político, é aguardada não apenas como biografia familiar, mas como peça fundamental para entender a resistência ao “Território Livre de Princesa”. Bonates, ao resgatar a memória do avô, conecta gerações e reafirma a importância da preservação histórica.

Evandro da Nóbrega ainda nos lembra de detalhes geopolíticos cruciais: a aliança entre Plínio Lemos e famílias como Brasilino e Leite, que ajudaram a barrar o avanço revoltoso, evidencia como o poder local influenciou o destino regional. Já a ascensão de Juarez Távora a “condestável da República” contrasta com a figura do jovem tenente em fuga, mostrando a mobilidade social e política da época.

Nóbrega, com sua erudição acessível, nos convida a explorar essas narrativas, reforçando o papel de instituições como o IHGP na guarda de nossa memória. Aguardamos, com interesse, o desdobramento dessas histórias — tanto nas páginas do livro de Bonates quanto nas futuras pesquisas que certamente brotarão deste fértil solo histórico.

Na sequência, o texto de Evandro da Nóbrega:

A AMIZADE ENTRE O HISTORIADOR ECONÔMICO LUIZ PINTO E O FUTURO PRESIDENTE DA REPÚBLICA CAFÉ FILHO

* por Evandro da Nóbrega,

do IHGP (Instituto Histórico e Geográfico Paraibano)

TANTO SÃO VERDADEIRAS ESSAS COISAS CONTADAS POR VOCE, meu caro amigo & colega Sérgio Botelho, que o notável advogado carioca, de origem paraibana, o Dr. Luiz Alberto Xavier de Albuquerque Pinto, atuante especialmente no Foro do Rio de Janeiro e também dedicado grande parte do tempo a pesquisas históricas, nos manda dizer algo relevante:

* seu avô, o historiador econômico paraibano Luiz Pinto, conheceu Café Filho nesse tempo em que ele, como revolucionário de 1930, morou na Paraíba.

TAMBÉM COM JUAREZ TÁVORA

Em tempo: algo parecido ao que nos conta o Dr. Luiz Alberto sobre Luiz Pinto e Café Filho aconteceu com o tenente (também revolucionário) Juarez Távora, que também se escondeu aqui por uns tempos, tendo até se embrenhado pelos Sertões tabajarinoas, a ponto de se encontrar, no vale das Espinharas, com um dos chefes da resistência à revolta de Princesa, o então promotor de Justiça Plínio Lemos.

Quem conta toda essa história, direitinho, é o engenheiro de minas, escritor, pesquisador, biógrafo e historiador Eduardo Jorge Lira Bonates, em seu livro “Um Homem em Defesa do Nordeste – Plínio Lemos: Sua vida, obra e legado”, a ser lançado nos próximos meses.

É UM LIVRO SOBRE O AVÔ

Aliás, há grande expectativa sobre o lançamento deste livro, não apenas em Campina Grande (cidade governada por Plínio Lemos, embora este fosse areiense de nascimento — mas por causa disto, não, que outros prefeitos campinenses não eram natos no município, a exemplo de Elpídio José de Almeida e Ronaldo Cunha Lima.

Em tempo: Plínio Lemos era avô do autor da obra, o Dr. Eduardo Bonates.

JUAREZ TOPA-SE COM PLÍNIO

Juarez — que tinha autorização de José Américo de Almeida, o chamado “Vice-Rei do Nordeste”, para levar suas tropas a qualquer parte do território paraibano — topou-se no município de Patos com o contigente comandado por Plínio, que não sabia da ordem de José Américo.

Aí ficou aquele clima de desconfiança no ar dos arredores patoenses, porque o tempo e o ambiente eram da maior ebulição revolucionária possível, com os jagunços do coronel princesense José Pereira Lima ameaçando o tempo todo tomar a cidade de Patos.

INVADIR PATOS & CAMPINA

Pelos planos dos revoltosos perrepistas, tomada a cidade dos Patins do Majó Migué, o passo seguinte seria invadir Campina Grande, seguindo uma grande coluna revolucionária em direção à capital paraibana, ao mesmo tempo que outra coluna guerreira, vinda do Norte brejeiro, sob o comando, entre outros, do patriarca Franklin Dantas, atacaria simultaneamente o reduto capitalino do presidente João Pessoa.

Felizmente (até certo ponto, ai!) para o presidente João Pessoa, os homens comandados por Plínio Lemos nas Espinharas, com a ajuda de fazendeiros locais, inclusive os das tradicionais famílias Brasilino e Leite, evitaram a tomada da já progressista Capital do Sertão, frustrando os planos perrepistas do “Território Livre de Princesa”…

Feitos os devidos telefonemas e esclarecidas as coisas, Juarez Távores e Plínio Lemos confraternizaram e se tornaram amigos para o restante da vida. Plínio foi deputado federal e prefeito de Campina Grande, ao passo que Juarez Távora se tornou um dos condestáveis da República, como chefe militar e ministro.

LUIZ PINTO & CAFÉ FILHO

Com relação ao grante economista Luiz Pinto, que escreveu uma História econômica da Paraíba, ele conheceu Café Filho por essa mesma época, na capital paraibana.

De alguma forma, o jovem estudioso Luiz Pinto — de probabilíssima ascendência cristã-nova — ajudou Café Filho a se esconder convenientemente na cidade, em que o perigo pairava concretamente nos ares.

E, muitos anos depois, viu premiada essa fidelidade ao amigo: quanto Café Filho assumiu a Presidência da República, após o suicídio de Getúlio Vargas, Luiz Pinto foi por ele nomeado para alto cargo da República, o que lhe permitiu dar continuidade a suas pesquisas histórico-econômicas.

Na sequência, comentários, no Facebook, provocados pelo post de Evandro:

Luiz Alberto X. A. Pinto

Evandro da Nóbrega Foi exatamente isso, Café andou às escondidas confabulando na Paraíba, ao lado de Juarez Távora e meu avô também integrava a trupe. Foram a algumas missões no interland paraibano, onde se andava, naquela época, como na “far west”. No discurso de posse de Tancredo de Carvalho ele menciona algumas dessas aventuras perigosas dos anos 30.

Luiz Alberto X. A. Pinto

Discurso de posse no IHGP.
Que oportunos e preciosos capítulos da nossa historia você conta, meu caro Evandro. Sua intervenção muito me honra e me deixa envaidecido. Um forte abraço ao amigo, e muito obrigado!
Amigo Evandro, sua diligente preocupação em retratar a história realmente como se deram os fatos, o faz um exímio historiador, preocupado apenas em mostrar aos leitores o desenrolar dos eventos.
Bravo Evandro, muito importante manter a memória viva da nossa HISTÓRIA
Conhecendo histórias da Paraíba, obrigada, bom dia 👏👏👏

Discover more from Parahyba e Suas Histórias

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Comente