Sérgio Botelho – A profunda comoção popular diante da morte de José “Pepe” Mujica, que a gente pode acompanhar ao vivo pelas redes de TV e pela internet, reflete não apenas o respeito do povo por sua trajetória política, mas também a conexão emocional que ele construiu com os uruguaios e para além de suas fronteiras. Mujica transcendeu a figura do político tradicional ao encarnar valores como simplicidade, integridade e empatia, tornando-se um símbolo global de resistência ao culto ao poder e à vaidade pelo seu exercício, sem perda da eficiência governamental.
Não havia nele qualquer apego aos rituais do cargo, tão caros a alguns, mesmo em funções as mais comuns, menos cercadas de poder efetivo. Não raramente, o desempenho de uma simples inspetoria de quarteirão revela os piores déspotas. Contudo, Mujica sempre se portou despojado de formalismos, desencanado quanto a protocolos sendo, nesse particular, um sujeito não convencional, mesmo exercendo o altíssimo cargo de presidente do seu país.
Sua vida marcada pela coerência — desde a luta guerrilheira nos anos 1960 até a presidência (2010–2015) — e seu estilo de vida humilde, doando a maior parte de seu salário para projetos sociais, criaram uma identificação rara entre governante e governados. Não fosse isso, não teria aprovado, em sua passagem pelo governo, em mandato constitucional de cinco anos, três propostas intransigentemente combatidas, do ponto de vista da insensível e violenta moral vigente: o aborto, o casamento gay e a liberação da maconha.
Embora defendidas em muitos países sob argumentos de saúde pública, luta contra o tráfico, redução de danos, direitos civis e liberdade individual, ainda enfrentam forte resistência, especialmente em sociedades polarizadas e com grande influência de discursos com invólucros religiosos ou falsamente moralistas. No entanto, Mujica conseguiu implementar essas reformas sem que o país mergulhasse em um caos político, porque sua autoridade moral, construída sobre uma vida de simplicidade, coerência e sacrifício pessoal, oferecia uma base de confiança, reduzindo o poder mistificador dos contrários.
Sua força moral vinha da legitimidade que um governante conquista por meio da coerência entre discurso e prática, da sobriedade no exercício do poder, e da capacidade de dialogar com diferentes setores da sociedade. Em tempos de polarização, como os que vivemos, pautas complexas tornam-se alvos fáceis para campanhas emocionais — muitas vezes carregadas de desinformação.
A aprovação de temas sensíveis como esses exige não só articulação política, mas sobretudo credibilidade pública e capacidade de escuta e mediação — elementos que, somados, compõem a chamada força moral. Isso porque as campanhas contrárias a essas pautas muitas vezes não se baseiam em argumentos técnicos, mas em apelos ao medo, à fé e a valores mesquinhos e embotados por ideologias extremistas. Para enfrentá-las, não basta gritar mais alto: é preciso inspirar confiança, desarmar corações e conquistar mentes. E isso só se faz com uma postura ética firme.
O luto coletivo que se vê no Uruguai, portanto, não é apenas pela morte de um ex-presidente, mas pela perda de uma figura que personificava a possibilidade de uma política humanizada, próxima das angústias e esperanças das pessoas comuns. Mujica representava uma utopia tangível: a ideia de que é possível governar com autenticidade e priorizar o bem-estar social sobre interesses econômicos elitistas.
Seu legado, entretanto, vai permanecer como um lembrete poderoso de que lideranças capazes de escutar e compartilhar a vida cotidiana de seu povo deixam marcas que vão além de políticas públicas — tocam o imaginário coletivo e inspiram afeto genuíno. A dor, nesse caso é também um reconhecimento tácito de que figuras como ele são exceções em um cenário político frequentemente marcado pelo cinismo.
Nesta quarta-feira, 14, assistindo, como já relatei, ao correr da imensurável fila de seus compatriotas, vi um cidadão ajoelhar-se piedosa e respeitosamente perante o seu caixão, e, depois de fazer o sinal da cruz, rezar como se reza a um santo. E olhe que Mujica sempre se posicionou como ateu. O que aquele católico fazia era um ato de profundo respeito por quem, em vida, se portou com muito mais santidade do que muito carola que vai à missa ou ao culto, todos os dias. Se Pepe Mujica fosse um religioso católico, rapidamente teria de ser canonizado.
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