Sérgio Botelho – Em um mundo marcado por polarizações, a ciência se impõe, pela mais premente necessidade, como um dos poucos pilares capazes de unir a humanidade. Independentemente de crenças religiosas, orientações políticas ou fronteiras geográficas, seu método baseado em evidências, revisão crítica e busca pela verdade objetiva a torna uma ferramenta indispensável para o progresso coletivo. Defender a ciência não significa negar a diversidade de pensamento, mas reconhecer que, sem ela, seremos incapazes de enfrentar complexos desafios globais, desde pandemias até a crise climática, que exigem respostas baseadas em fatos, não em dogmas.
A ciência é, por essência, transcultural. Seus princípios não distinguem nacionalidade ou fé: a gravidade atua igualmente sobre todos; as leis da termodinâmica regem tanto laboratórios em Tóquio quanto em Nairobi; vacinas desenvolvidas por pesquisadores de diversas origens salvam vidas em todos os continentes.
Esse caráter universal deriva de seu método, que submete hipóteses ao crivo da experimentação e do debate aberto. A ciência não pretende responder a questões metafísicas — como o sentido da vida ou a existência de Deus —, mas oferece ferramentas para compreender o mundo material.
Infelizmente, a ciência tem sido, por vezes, refém de agendas ideológicas. No entanto, problemas como o aquecimento global ou a desigualdade no acesso à saúde exigem políticas informadas por evidências, não por conveniências partidárias.
Acordos internacionais, como o Tratado de Paris, só foram possíveis porque a ciência provou, de forma irrefutável, a urgência da cooperação global. Durante a COVID-19, foram os avanços em pesquisa básica que permitiram vacinas em tempo recorde, salvando milhões.
Além de debates abstratos, a ciência impacta vidas concretas. Foi graças a ela que erradicamos a varíola, aumentamos a expectativa de vida e conectamos bilhões através da tecnologia. Seus benefícios não são privilégio de uma classe ou nação.
Nesse sentido, a agricultura sustentável, a medicina de precisão e as energias renováveis são conquistas que devem ser democratizadas. Contudo, isso só ocorrerá se governos, empresas e sociedade civil priorizarem investimentos em educação científica e inovação, especialmente em países em desenvolvimento.
A valorização da ciência passa necessariamente pela educação. Ensinar não apenas fórmulas, mas o pensamento crítico, permite que as novas gerações distingam fatos de fake news. Um público informado é menos vulnerável a discursos anticiência, seja um movimento anti-vacina ou a rejeição a transgênicos sem base racional.
Defender a ciência é defender o futuro. Ela não é perfeita — erros fazem parte de seu processo —, mas é autocorretiva, sempre aberta a revisões diante de novas evidências. Seu maior valor está em nos lembrar de que, diante da complexidade do universo, nossa força está na humildade de questionar, na coragem de testar hipóteses e na sabedoria de agir com base no conhecimento.
Religiões, filosofias e ideologias seguirão moldando identidades, mas a ciência deve permanecer como terreno comum, onde todos podem colaborar. Em um século desafiador, que exige soluções para problemas sem precedentes, não há espaço para abandonarmos nossa melhor ferramenta: a luz da razão, acessível a todos, independentemente de credo ou bandeira.

