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PARAHYBA E SUAS HISTÓRIAS. A Nau Catarineta

Sérgio Botelho – A Nau Catarineta é uma dança teatralizada tradicional portuguesa que chegou ao Brasil no século XVIII. Romance popular em Portugal, com o título de A Nau Catrineta, se inspira nas tragédias marítimas comuns na história portuguesa. O escritor e teatrólogo lusitano Almeida Garrett (1799-1854) atribui a origem da história ao naufrágio da nau Santo António, ocorrido em 1565.
A trama é conhecida por sua natureza teatral e dramática, contando justamente histórias de uma tripulação em alto mar por meio de cantos e encenações. No enredo, tempestades, naufrágios, fome, sede, e a saudade de casa. Na Paraíba, o folclore resiste, com tradição centenária, na cidade de Cabedelo, onde é patrimônio cultural e imaterial do município. A Fortaleza de Santa Catarina costuma servir de palco para a apresentação do grupo.
Em 1938, quando de sua passagem pela Paraíba, coordenando a Missão de Pesquisas Folclóricas, que percorreu o Brasil, o escritor, musicólogo e ativista cultural paulista, Mário de Andrade, registrou a Nau Catarineta. Papéis específicos no enredo são distribuídos com a tripulação. Alguns dos personagens mais comuns da Nau Catarineta são o tenente-general, o capitão-patrão, o imediato, o piloto, o capitão-de-artilharia, o médico, o capelão, o contramestre, o gajeiro, o vassoura e o ração.
Na versão paraibana existe a personagem Saloia, mulher que viajava escondida no porão do navio. Mesmo após ser descoberta, permaneceu protegida pelos marujos. A Nau Catarineta é acompanhada por música e cantos, que ditam o ritmo da dança e ajudam a contar a história. Os movimentos dos dançarinos imitam as atividades dos marinheiros a bordo, como puxar cordas, içar velas, e remar.
Pelo brasil afora a dança tem nomes diversos, como fandango, marujada, a barca e chegança. Recolhido por Garret, e, no Brasil, musicado por Antônio Nóbrega, existe famoso poema anônimo chamado Nau Catarineta, que retrata as dificuldades e tragédias da vida no mar. A continuidade dessa tradição evidencia a riqueza do nosso patrimônio cultural.
O famoso e saudoso folclorista Tenente Lucena esteve envolvido na pesquisa e documentação dessa tradição, registrando apresentações e aspectos históricos da Nau Catarineta em Cabedelo. Em 1971, ele recolheu uma apresentação da Barca na Rua da Saudade, documentando cantigas e depoimentos sobre a tradição. Além disso, há registros fotográficos de marujos da barca caminhando ao lado do Forte Santa Catarina, com Tenente Lucena ao fundo.

Truléu da Marieta

Antônio Nóbrega

Truléu, léu, léu
truléu da Marieta
que nós somos marinheiros
dessa Nau catarineta
,
que nós somos marinheiros
dessa Nau Catarineta

“oh marujo lá do leme”,
grita o piloto na proa,
“orça a barca para o norte
que temos na frente coroa”.
Nós saímos de Espanha
com destino a Portugal,
oh, que alegria que teremos
quando lisboa avistar

Quando o mar balança a barca
eu tenho recordação,
do meu bem que está em terra,
chave de meu coração.

Nossa enhora da Guia
ela nos queira guiar,
que chegamos todos vivos
no porto de Portugal.

A xilogravura, do artista plástico Marcelo Soares, retrata a Nau Catarineta, com a figura feminina em destaque.
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