92 anos da morte de João Pessoa

Sérgio Botêlho – Morte de João Pessoa: em 26 de julho de 1930, um sábado, o então presidente do Estado da Paraíba era assassinado em Recife e, até hoje, o crime divide opiniões

Foi num sábado, em 26 de julho de 1930, quando o então presidente João Pessoa, que governava a Estado da Paraíba (no caso, Presidente do estado) foi assassinado em Recife, capital pernambucana, distante cerca de 120 quilômetros da então capital paraibana, a Cidade da Paraíba.

Ele foi morto a tiros pelo advogado João Dantas, membro de importante família da oligarquia provincial da época, o qual junto com os Suassunas e, mais fortemente, com o coronel José Pereira, da região de Princesa Isabel, fazia oposição ferrenha a João Pessoa, que, no governo, se contrapunha ao chamado coronelismo.

No governo, o presidente do estado cobrava impostos das atividades econômicas dos coronéis, no escoamento de produtos, enquanto na política operava para eliminar, das listas oficiais de candidatos, os nomes mais proeminentes dos que considerava antiguidades políticas, como fez com o seu antecessor, João Suassuna, suprimido da relação de candidatos ao Congresso Nacional. Sem deixar, no entanto, de manter na lista um seu parente tão antigo na política quanto os que ele riscou.

Na briga com seus adversários, valia tudo, inclusive a publicação de cartas pessoais de João Dantas no jornal A União, diário patrocinado pelo estado (ainda hoje estatal e em circulação), cartas que expunham, num ato estúpido e reprovável, o relacionamento de Dantas com a professora Anayde Beiriz. (Até hoje dizem que João Pessoa nada teve a ver com a publicação, apesar de ocupar o mando público paraibano).

Por conta da inominável exposição pública, João Dantas, que estava morando em Olinda, ameaçou João Pessoa: “não venha a Recife que lhe mato!”. E cumpriu a promessa. Estando o presidente do Estado da Paraíba naquele sábado, na Confeitaria Glória, Dantas invadiu o local e matou o político à queima roupa.

Pelo crime, João Dantas também pagou com a vida, tendo sido vilmente assassinado, na cadeia, a cortes de estilete. Anayde Beiriz foi encontrada morta, no Asilo Bom Pastor, na Cidade da Paraíba, segundo dizem, envenenada, tendo a sua memória sido sepultada junto com ela, até a cineasta Tizuka Yamazaki produzir o filme “Parahyba-Mulher Macho Sim Senhor”, em 1983, contando a vida da professora paraibana.

A memória de João Pessoa, contudo, alcançou os píncaros da glória, imediatamente, não apenas no Estado da Paraíba, mas em capitais brasileiras por onde seu corpo desfilou, entre a Cidade da Paraíba e o Rio de Janeiro, onde foi finalmente enterrado debaixo de honras e glórias como mártir da política executada pelo então presidente Washington Luiz.

Esclareça-se, agora: João Pessoa havia sido candidato a vice-presidente da República, na chapa encabeçada pelo líder gaúcho, Getúlio Vargas, uma composição política que foi derrotada pelo líder paulista, Jùlio Prestes, em 1 de março de 1930. Este, candidato oficial de Washington Luiz.

Com a morte de João Pessoa e a comoção que o ato causou, Getúlio liderou a chamada Revolução de 30, impedindo a posse de Júlio Prestes, com ele próprio, o gaúcho, assumindo a presidência, onde permaneceu por 15 anos, após instalar uma ditadura. 

Na Paraíba, onde a emoção provocada pela morte de João Pessoa, e incentivada pelos seus correligionários e amigos, atingiu impacto máximo, os deputados locais se reuniram e cercados de populares por todos os lados, trocaram o nome da Cidade da Paraíba por João Pessoa. 

Nessa pisada, junto com Minas Gerais e Rio Grande do Sul, a Paraíba, já em outubro daquele ano, mesmo, deu início à Revolução de 30, sobre a qual já nos reportamos, um movimento que, para parte dos historiadores brasileiros, destacadamente paulistas, não passou de um golpe. 

Ainda hoje a Paraíba mantém discussão acirrada sobre o heroísmo reclamado pelos correligionários de João Pessoa. Teria a política anti-coronelista do extinto sido suficiente para lhe conceder a medalha de herói por conta do assassinato? O que foi fazer o presidente da província da Paraíba, num dia de sábado, em Recife, sem qualquer aparato de segurança, apesar de ameaçado de morte?

O furor nacional provocado pela morte do paraibano explicaria a necessidade de aceitá-lo como herói do país e do estado ou não teria servido, apenas, para a tomada do poder por Getúlio Vargas? Quem mandou publicar no A União as tais cartas pessoais trocadas entre João Dantas e sua namorada, a professora Anayde Beiriz, cujo conteúdo somente dizia respeito aos dois? Pessoal ou política a morte de João Pessoa? Responder a esta última pergunta encerra o caso? 

Seja lá como for, o prestígio do ex-presidente do Estado da Paraíba, nas gerações atuais, permanece no topônimo da capital do estado, e, a bem da verdade, em ruas e praças pelo país afora. De qualquer forma, a data de sua morte não é mais feriado estadual. 

Enfim, por força principalmente das mulheres, Anayde Beiriz ganhou brilho e representatividade, sendo hoje importante símbolo feminista para as paraibanas.

Crédito da foto: Arquivo pessoal de Eduardo Cavalcanti, reproduzido em O Globo

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