20 de fevereiro: as nossas circunstâncias

Sérgio Botêlho – Quando nasci, em 20 de fevereiro de 1950, menos de cinco anos após o final da Segunda Guerra Mundial, os dois ingleses John Lennon e Ringo Starr ainda iam completar 10 anos de idade. Seus conterrâneos Paul McCartney e George Harrison tinham sete e seis anos, tão somente.

Quem reinava na Inglaterra, então, era o rei George VI, pai da atual rainha Elizabeth II (Izabel ou Lilibeth para os mais íntimos, como é o caso do seu falecido marido, o príncipe Philip), ela, que viria a assumir o trono em 1952, após a morte do pai, falecido por conta de um câncer de pulmão.

Enquanto isso, Elvis Presley ainda estudava o curso secundário e variava de trabalho entre lanterninha de cinema e caminhoneiro. Mas, costumava educar a voz participando do coro de uma igreja protestante de Memphis, Tennessee.

Nos States de Elvis, país mais rico e adiantando do mundo e espelho em que os terráqueos em geral se refletiam, reinava a discriminação racial, com negros tendo de ceder lugar aos brancos, nos ônibus, além de serem impedidos de frequentar as mesmas escolas e, não raramente, faculdades.

Também nos Estados Unidos, Michel Collins estudava para piloto, Buzz Aldrin para engenheiro mecânico e Neil Armstrong para aviador naval. Na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) Yuri Gagarin era um divertido secundarista.

Ao espaço, então, Estados Unidos e URSS somente despachavam aviões; e, apesar dos dourados e desafiadores anos 20, as mulheres como um todo continuavam tendo de se limitar, apenas, ao papel de adornos e satisfação dos homens.

No Vietnã, os vietnamitas do norte ainda lutavam contra as forças francesas, finalmente derrotadas em 1954, para, no ano seguinte, começarem nova luta contra os norte-americanos, no que nós conhecemos como Guerra do Vietnã.

No caso, a guerra do Vietnã, assim como a da Coreia e outras que tais (Laos, Camboja), eram as manifestações físicas mais exibidas de um conflito ideológico em escala mundial envolvendo Estados Unidos e União Soviética – a chamada Guerra Fria – que nos aborreceu pela infância e juventude afora, e alguma parte da vida adulta.

No Ocidente, o cenário da guerra fria era ideal a agrupamentos antidemocráticos que passaram a utilizar o chamado perigo comunista para assaltar o poder e perseguir adversários políticos.

No Brasil, em 1950, por exemplo, vivia-se ainda a euforia da redemocratização do país, alcançada 4 anos antes, com a queda do ditador Getúlio Vargas, após 15 anos de governo, 8 dos quais em fechado regime ditatorial, o Estado Novo, erguido sob a bandeira do… combate ao comunismo.

No futebol, o Brasil tinha naquele ano a possibilidade de conquistar, pela primeira vez, a Copa do Mundo, que se realizaria em solo brasileiro, o que terminou não se concretizando. Portanto, quando nasci, o Brasil jamais havia conquistado a Copa do Mundo de futebol.

Na música, em 1950, João Gilberto cortava um dobrado como cantor e músico, no Rio de Janeiro. Já Tom Jobim tocava em bares e boates de Copacabana. Caetano Veloso ainda era um menino de 7 anos, e Gilberto Gil era outro, com os mesmos 7 anos.

Bem, no decorrer dos anos 50, 60 e os demais tudo isso evoluiu, para o bem e para o mal. Os ingleses John, Ringo, Harrison e Paul formaram os Beatles, a banda mais popular e influente até os dias de hoje, no mundo.

Pouco antes deles, o branco Elvis Presley nos EUA, na segunda metade da década de 50, iniciou uma revolução jovem na música com o ritmo do rock and roll, que lhe fora cedido, a contragosto, pelos seus verdadeiros criadores, os negros.

Sob outra perspectiva, a reação dos movimentos negros, no decorrer dos anos 60, acabou derrubando as leis mais absurdas que conduziam à discriminação racial da qual os Estados Unidos eram a principal vitrine inspiradora internacional. Embora, em outros patamares, a lute continue.

Na União Soviética, Yuri Gagarin transformou-se no primeiro homem a ir ao espaço sideral, servindo de gatilho à corrida espacial dentro da Guerra Fria. Mais tarde, os estadunidenses Michel Collins, Buzz Aldrin e Neil Armostrong pousaram e andaram na lua.

Lá na Ásia, assim como os franceses, os norte-americanos foram derrotados e se retiraram do Vietnã. O que veio depois, infelizmente, foram regimes brutais e assassinos apagando o heroísmo da luta contra os também assassinos ianques, que usaram bombas químicas para matar mais dolorosamente seus inimigos e destruir a natureza.

Por sua vez, a Guerra Fria terminou na ocasião em que a União Soviética se desmanchou praticamente de uma hora para outra, desmanche acompanhado pouco tempo depois pela queda do Muro de Berlim, que dividia a Alemanha em capitalista e comunista.

De sua parte, as mulheres embrenharam-se numa luta titânica contra as várias discriminações de gênero, avançando consideravelmente na conquista da igualdade; mesmo que, ainda hoje, essa luta continue muito feroz e desigual.

Quanto aos jovens, exaustos, nas décadas de 60 e 70, significativo contingente deles se autoexcluíu da sociedade, sob a bandeira da contracultura, dando início ao movimento hippie, alegre, colorido, comunitário e muito musical, espetacularmente exposto no icônico Festival de Woodstock, em 1969.

Milhares de outros moços e moças, contudo, foram às ruas e, no mundo inteiro, questionaram a guerra fria e o autoritarismo, faltando muito pouco para que chegassem ao poder na França, nos fabulosos acontecimentos parisienses de Maio de 68.

No Brasil, nossa seleção de futebol masculino tornou-se, durante esse tempo, pentacampeã mundial de futebol. Por outro lado, em 1964 o Brasil deixava o campo das nações democráticas para se embrenhar numa ditadura, sob o indigitado argumento do anticomunismo, que destituiu o governo democraticamente eleito, de então, e acabou matando muita gente, principalmente jovens.

Sabe João Gilberto, Tom Jobim, Gilberto Gil e Caetano Veloso? Pois bem. Foram eles os principais nomes a levar a música brasileira às paradas internacionais. Tanto assim que Garota de Ipanema (de Tom e Vinícius) é hoje a música brasileira mais gravada do mundo.

Eles e mais Chico Buarque, Milton Nascimento, Belchior, Paulinho da Viola e tantos outros que os acompanharam no campo favorável e iluminado do que se convencionou chamar de Música Popular Brasileira.

E de todo aquele quadro dos anos 50, e lá se vão 72 anos, minha idade a partir de hoje, quem segue no poder é a rainha Elizabeth II, do Reino Unido, com quase 100 anos. Duríssima na queda e sem dar sinal de que pretende encerrar sua passagem pela Terra, nem muito menos largar o trono, ela assistiu tudo isso de uma posição bem privilegiada, praticamente sem mexer uma palha.

Dito isso, me permitam: viva o 20 de fevereiro, dia em que nasci, e viva a geração dos anos 50, que viu o mundo dar várias capotadas, e levantar-se outras vezes, como as que alinhavamos nesse despretensioso texto envolvendo os meus tempos e os de meus coexistentes junto com nossas circunstâncias!

E quem não protestou pelas ruas do mundo ou não cantou junto à vitrola com os Beatles ou não dormiu de sleeping bag nem sequer sonhou!


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