2 de fevereiro: Nossa Senhora, Iemanjá e a resistência negra

2 de fevereiro é dia consagrado a Nossa Senhora dos Navegantes e a Iemanjá, com grande festa (em tempos normais, sem pandemia), em Salvador

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Sérgio Botêlho – “Dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar. Trabalhei o ano inteiro, pra saudar Iemanjá”. Hoje, na Bahia – com uma grande festa em tempos normais sem pandemia – e em várias partes do país é comemorado o Dia de Iemanjá. Em outros lugares brasileiros, destacadamente no Nordeste Setentrional, esse dia é comemorado em 8 de dezembro. Por quê?

Primeiro, há de se observar a história da migração forçada dos africanos para o Brasil, nos tempos da escravidão. Daquele continente, os escravos trouxeram na bagagem espiritual suas crenças e religiões naturais. No Brasil, essas crenças e religiões foram confrontadas com as dos dominadores portugueses.

A relação de dominação implicou em intenso projeto de impor, aos escravos, a religião cristã, predominante entre os brancos da Península Ibérica, donos do Brasil. Por outro lado, os negros africanos resistiam o quanto podiam para manter sua própria fé. Uma resistência absolutamente desigual, em termos de força.

Opor-se resolutamente à pressão dos donos dos escravos, que tinham poder de vida e de morte sobre os cativos, era tarefa classificada nos rol das impossibilidades. Nessa terrível luta espiritual e física, representada pelo massacre nada cristão dos senhores contra os escravos, o prejuízo sobrava para os que estavam submetidos pela força das armas.

Então, a resistência dos negros passou a ser exercida por meio de um astuto artifício: o do sincretismo religioso.

Na verdade, o sincretismo religioso, no Brasil, tem uma dimensão bem maior e, em boa parte, se concretizou por meios menos violentos. Assim aconteceu entre índios e portugueses, no uso de ervas em rezas cristãs, tão comumente exercitadas por benzedeiras e benzedeiros pelo país afora. O culto à jurema é outro exemplo, nesse caso, com a inclusão de elementos da fé africana, ao lado da indígena e da cristã.

Contudo, não foi tão normal assim o processo de imposição do cristianismo sobre as religiões africanas. Frequentemente submetidos a castigos dolorosos, não raramente tendo como efeito a morte dos castigados, os negros passaram então a adotar um processo destinado a confundir os brancos.

Primeiro, identificaram os orixás (guias santificados) africanos com santos católicos. Oxalá foi reconhecido como Jesus, Iemanjá, como Nossa Senhora da Conceição e como Nossa Senhora dos Navegantes, Ogum, como São Jorge, Exú, como Santo Antônio, Oxóssi, como São Sebastião, Xangô, como São Pedro, Iansã, como Santa Bárbara, entre outros.

Dessa maneira, os negros conseguiam fugir aos castigos, sem ferir o que realmente seus corações desejavam. E, na intenção real de homenagear suas próprias entidades religiosas, o faziam em nome das que representavam o cristianismo.

Há outro exemplo de resistência dos negros à dominação branca bastante significativa, que é a capoeira. Impedidos de se exercitarem ou de praticarem qualquer tipo de luta, os escravos, especialmente os que trabalhavam com a cana de açúcar, inventaram a capoeira, utilizando música como se estivessem dançando.

O resultado foi a redução do estresse e um melhor condicionamento físico para enfrentamentos eventuais em fugas, o que era bastante comum acontecer na época da escravidão.

Agora, para responder à questão do porquê de existirem duas datas para a comemoração de Iemanjá, ela está resolvida na identificação dos orixás com os santos católicos.

Como vimos, a Rainha do Mar, dos africanos, foi associada à Nossa Senhora da Conceição, festejada em 08 de dezembro, e à Nossa Senhora dos Navegantes, comemorada em 02 de fevereiro, pelos católicos. Hoje, dia 2 de fevereiro, é dia de Nossa Senhora dos Navegantes.

Enfim, da mesma maneira como em tempos de antanho, é preciso continuar enxergando as religiões de matriz africana como peças formidáveis de resistência, dando-lhes valor inestimável na singular formação do povo brasileiro.

Respeito profundo à cultura e a fé negras, que não são superiores nem inferiores a qualquer outra fé ou cultura, é o mínimo que se pode exigir.

Portanto: Viva Iemanjá! Viva a cultura negra! Viva o povo brasileiro!

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