🌆 Crônica da Tarde (A caligrafia que faz falta)

Old paper texture background with handwritten text. Handwriting. Calligraphy. Letter

Sérgio Botelho – Admito que, hoje em dia, tenho enfrentado dificuldades crescentes para me fazer entender por meio da escrita cursiva. Contudo, sou do tempo das canetas-tinteiro, onde a lendária Parker 51 era o ápice do requinte, acessível apenas aos filhos dos mais abastados. Naquela época, as provas escolares exigiam raciocínio registrado à mão, de forma cursiva, no papel – sem espaço para erros ou correções.

Eram tempos ainda de cartas de amor, escritas e lidas com sofreguidão. Tempos em que o sentimento ganhava corpo no papel. E, para isso, era preciso ter uma letra inteligível, ao menos. E quanto mais perfeita, melhor, lógico. Havia, então, os cadernos de caligrafia, que orientavam disciplinas exigidas nos colégios com rigor. Tudo isso era parte indispensável do estágio tecnológico da época.

O primeiro grande golpe na prática cursiva veio com a adoção das chamadas provas objetivas —do certo e do errado e do X na resposta certa —, nos colégios cada vez mais cheios de alunos, facilitando a correção por parte dos professores. Depois, sorrateira e irresistivelmente se popularizou a máquina de escrever, transformando profundamente a forma de se produzir texto, substituindo a caligrafia manual por um novo padrão: o da escrita mecanizada, uniforme e veloz.

O choque definitivo veio com o computador pessoal – operado por meio de um teclado com letras e números dispostos qual a antiga máquina de escrever. Desapareceram, então, os erros riscados, os papéis amassados no cesto, o barulho ritmado das teclas da Remington e o tinido ao final da linha. Sumiram também os frascos de corretivo, as folhas carbono, os cursos de datilografia, os dedos treinados para deslizar sem olhar, guiados apenas pela memória tátil.

Vivi todas essas fases, e as adotei, todas elas, de forma imersiva, profissional e total. E, em meio a esse processo todo, também se foi minha capacidade de produzir, compreensivelmente, a letra cursiva, da qual não sei se sinto exatamente saudade. Mas que me faz uma falta danada, isso faz!

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