Sérgio Botelho – A todo momento, estamos, por algum motivo, correndo contra o tempo. Pressionados pelos prazos, nos preocupamos diariamente com compromissos dos mais diversos — desde acordar e se arrumar até se agasalhar e dormir. Temos boletos a pagar dentro da data estipulada. Dar início ao trabalho diário. Ir ao supermercado ou à padaria, ao médico ou à farmácia. A todo instante, estamos pressionados pelo inabalável tempo.
Digo inabalável porque o tempo não se detém por nada neste mundo. Não há guerra que empate o correr do tempo. Não há vontade humana, por mais poderosa e apetrechada das armas mais mortais, que o detenha. Não respeita sequer o nosso sono, nem nossas celebrações, nem nossos sofrimentos. Ele é contínuo, ininterrupto. O tempo nem se atrasa nem se adianta — embora seja useiro e vezeiro em não respeitar nossos atrasos ou nossas precipitações.
Aliás, atrasos ou precipitações nossas não interferem no correr do tempo. Independente de nossas angústias — geralmente responsáveis pela pressa ou pela falta dela — o tempo segue absolutamente indiferente a tudo isso. Ele nem se apressa, nem se retarda em sua trajetória por conta de nós. Desde que nascemos, corremos contra o tempo e, nessa corrida, sabemos que seremos derrotados.
Talvez o melhor que possamos fazer, antes da derrota, seja reconhecer a soberania do tempo, sem enfrentá-lo, mas também sem nos render. Seguir vivendo, apesar dele — e com ele —, tentando dar sentido às horas que nos cabem, antes que a ampulheta vire sozinha e não haja mais olhos para ver nem mãos para virar.
Para finalizar recorro à bela Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, e a endosso, para a hora em que a ampulheta virar: “E, quando eu tiver saído para fora do teu círculo, tempo, tempo, tempo, tempo, não serei, nem terás sido. Ainda assim, acredito ser possível reunirmo-nos num outro nível de vínculo.”
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