🌆 Crônica da Tarde (A transitoriedade de tudo)

Crônica da Tarde

Sérgio Botelho – Ao estudar reações químicas e seus resultados, o cientista francês Antoine Laurent Lavoisier, ali no final do Século XVIII, estabeleceu um dos princípios fundamentais da Química moderna: a soma das massas reagentes é igual à soma das massas resultantes. Comprovou isso num recipiente fechado, onde, mesmo diante da transformação química de substâncias em outras a soma do material resultante foi igual ao do material reagente, segundo aferido por balanças de alta precisão.

Daí, para o conceito geral de que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, foi um pulo científico natural, resultando num princípio também científico, de caráter filosófico, que rege toda a natureza, onde se inclui a parte da organização humana e das ideias. Tudo o que temos em volta de nós, do mundo material ao do pensamento, é fruto de transformações contínuas, onde nada é exatamente criado. O próprio ser humano é um exemplo perfeito disso.

Estava lendo histórias das mais simples, nesses dias, envolvendo o processo de transformação de cascas de coco em maravilhosos tapetes que cobrem até praças, no Vietnam. Na Ásia, tudo o que se move, rasteja ou voa é fonte de proteína e vira alimento, alguns depois de muito processamento. Na Amazônia, após esmagada a mandioca brava, o caldo, que é venenoso, experimenta um cozimento demorado e passa a compor um dos ingredientes mais formidáveis da culinária nortista, que é o tucupi, arte paraense espalhada pelo mundo.

Por aqui, o mais comum é jogar fora a casca do coco, aumentando o volume de lixo na cidade. Também não costumamos comer cachorro nem cobras nem insetos. E após a prensa da mandioca, para fazer a farinha, o caldo venenoso é jogado fora, o que mexe com os nossos problemas ambientais.

Mesmo os excrementos humanos, se devidamente processados, se transformam em energia a nosso serviço. Quer dizer, conhecendo a teoria geral de que na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, e alimentando nossa curiosidade e engenho, maravilhas podem ser alcançadas.

Porém, muito mais do que essas simplicidades do dia a dia, que têm a ver com a nossa subsistência, o princípio de Lavoisier deve ser compreendido bem mais amplamente, no sentido de termos os pés mais fincados na terra e no interesse humano.

É vital tomar consciência, principalmente, de que fazemos parte de um mesmo movimento, sempre contínuo, transitório, da mutação permanente, onde nada nem ninguém é totalmente descartável nem eterno.


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