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Sábado feliz

Sérgio Botelho – Reproduzimos crônica de Hildeberto Barbosa Filho, publicada originalmente nesse domingo, 30/03, no jornal A União, onde o acadêmico, escritor e poeta relata celebração emocionada, quase litúrgica, de convivência intelectual e afetiva, em evento no grupo de debates Mirabeau Dias, ocorrido no sábado, 22/03. Escrito com sua reconhecida elegância lírica, “Sábado feliz!” mergulha no espírito dos encontros literários — em especial o Sabadoyle, idealizado por Plínio Doyle no Rio de Janeiro e, na atualidade pessoense, replicado com brilho pelo professor aposentado da UFPB, cineasta, empresário e homem de cultura, Mirabeau Dias. É nesse movimento entre o que nunca viveu e o que vivera no Grupo Mirabeau Dias, que Hildeberto constrói o cerne do texto. Entre memórias, amigos e palavras, ele transforma uma manhã de sábado em eternidade. Um sábado que foi, de fato, feliz. Eu estava lá.

Sábado feliz!

Hildeberto Barbosa Filho

Mirabeau Dias, criador de outro Sabadoyle.

Nunca fui ao de Plínio Doyle, no Rio de Janeiro. Possuo, no entanto, um livro que conta sua história e reproduz todas as suas  atas. As atas registram infortúnios e alegrias. Grandes presenças que encheram aqueles sábados de glória e esplendor!

Gente maior era habitué. Drummond, Bandeira, Ribeiro Couto, Jorge de Lima, Zé Lins, Jorge Amado, só para referir gente de raça e gênio. Pessoa, vivo fosse, estaria lá, sempre acompanhado de Mário de Sá-Carneiro, e os opacos e cinzentos domingos de Paris.

Daqui, das terras tabajaras, sei que Humberto Melo, Horácio de Almeida e Elisabeth, a sagrada, esteve por lá, com seu charme, elegância, sabedoria. Betinha revelou Campina Grande ao mundo, pela felicidade da literatura. Botou, na mesma mesa, Eulajose Dias de Araújo e Affonso Ramano de Sant’ Anna, Haroldo de Campos e Maria José Limeira, Carlos Nejar e Milton Marques Júnior.

Nunca estive lá, no Sabadoyle do Plínio.  Mas estive, na semana passada, no de Mirabeau. Fui recebido com toda a generosidade da Casa, meio tímido, meio perplexo. Não sabia o que me esperava. Me sentei entre velhos e queridos amigos, cabeças singulares, ética nas atitudes, verdade na alma. Gente rara. Gente que nem existe mais!

Minto. Existe. Senti na pele!

Ouvi o anfitrião falando do cuidado, a partir de um velho texto que escrevi sobre as palavras, num livrinho que intitulei de Vou por aí. Que bom ver alguém, e alguém de quilate intelectual, lendo seu texto em público. Tentando dizer, aos outros, presentes na longa e aconchegante mesa, de minha humilde existência livresca e literária. Mostrando, no gesto corporal e auditivo da leitura, que o autor estava ali, naquela manhã de março, março que nunca foi um mês dos melhores, pelo menos na minha memória torturada. Mirabeau é um dos melhores! Me disse que devemos procurar a felicidade.

Na fala de João Batista de Brito, vi a ternura da confidência. Não sei por que, toda vez que vejo JBB, me lembro de Emily Dickinson, dos sigilos embutidos na poeticidade da  língua inglesa, nos sonetos de Shakespeare, nos contos de Poe, no escriturário de Herman Melville e de tudo que  não sei do mistério das traduções. João me parece um idioma rico e indecifrável.

Gil Messias é quase uma lenda. Ninguém toca as páginas dos livros raros como ele, ninguém sabe certas coisas como ele, como ele ninguém mergulhou fundo na interioridade das coisas humanas, naquilo que elas possuem de desacerto e de inexplicável. Só sabe isso quem se dá aos enigmas da escrita de obituários. Francisco Gil Messias é um poeta das tristezas da aldeia.

Clóvis foi perfeito como a dor de um velho engenheiro. Me comoveu além da conta. Se fez meu melhor leitor, na ausência e no anonimato. Creio que a inteligência tem a forma do recato e a substância do silêncio. Nada vale a minha palavra de gratidão. Apertar a sua mão foi o codigo melhor.

Sérgio Rolim, que sabe das secreções da água e dos sistemas internos da terra, disse que eu era “bom”. Não sei. Imagino, às vezes, que a engenharia é a poesia de uma possível exatidão. Os números dialogam com as palavras quando os esgotos explodem e se abrem para a vida. Há vida em tudo. Na cloaca, no caos, na catedral, na clareira da palavra.

João de Lima me trouxe a grandeza de Péricles Leal. Paiva me jogou na luxúria dos passarinhos. Trocar uma faca de ponta por um canário da terra se converte num poema.  Cabo Sérgio me delegou a luz, disse que eu era a referência de nossa juventude intelectual e boêmia. Ninguém falava, como Sérgio, nas tribunas calorosas das assembleias estudantis. Nada mais monstruoso que uma ditadura.

Certa feita disse que todo sábado é mágico. E é mesmo. Dizem que Deus descansou do imenso esforço de sua obra neste dia, o sétimo dia. Dia mágico. Já fiz poemas sobre isto. Sobre a grandeza dos sábados. Só que neste sábado, 22 de março de 2025, fui feliz!!

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