
Quero dizer que se trata realmente de uma leitura valiosa e ainda muito útil. O autor aborda a “invenção” do mototáxi quando ele ganhava as ruas do interior do Ceará. Serve como fonte primária para quem escreve sobre a história recente da mobilidade no Brasil.
Já naquela época, Coelho enxerga o mototáxi como resposta prática a um sistema de ônibus que deixava vazios no atendimento, sobretudo em cidades médias e pequenas. O argumento é direto. Onde o ônibus demora ou não chega, a moto chega.
Uma das partes curiosas do livro está na reconstituição de preços, percursos e personagens. Em Sobral, em 1996, a corrida a um real vira símbolo da novidade acessível. O autor registra a expansão veloz pelo estado e menciona adesões em outras cidades nordestinas. A cena ganha cor com depoimentos sobre quem usa e por que usa.
O livro não se limita ao retrato. Coelho pergunta sobre a longevidade do serviço, o formato empresarial e a segurança de usuários e condutores. As perguntas funcionam como previsão. Antecipam a necessidade de regras, treinamento e proteção trabalhista, num momento em que a atividade ainda operava sem amarras estáveis.
Para quem escreve sobre cidades, políticas públicas e memória social, o livro entrega muito. Oferece um diagnóstico claro do porquê a moto ocupou tanto espaço no deslocamento urbano e rural. Enxerga o trabalhador por dentro de sua rotina, com ganhos e riscos. Pressente a institucionalização que viria, do sindicato às normas federais. E guarda um retrato do tempo em que uma ideia barata, ligeira e próxima do cotidiano ganhou as ruas do Nordeste e, a partir dali, se espalhou pelo país.
