
Sérgio Botelho – Pelo menos em três logradouros do Centro Histórico de João Pessoa você encontra partes de meio-fio ainda em pedra calcárea: nas ladeiras Feliciano Coelho e Borborema, e nas ruas General Osório e Braz Florentino.
Os meios-fios de calcário são marcas físicas de um passado em que os materiais eram trabalhados por pedreiros e canteiros locais, numa cidade que veio a incrementar o processo de pavimentação da cidade em ritmo maior apenas na segunda metade do Século XX.
Cada bloco, mais antigamente, foi talhado à mão e colocado como parte da lenta expansão da cidade, no que tange à estruturação de avenidas, de ruas, de praças, de becos e travessas.
Eles são, portanto, fragmentos de uma época em que a urbanização se fazia de forma rudimentar, com o ritmo da pedra e do ofício humano, num verdadeiro trabalho de arte.
A permanência desses trechos supera desafios. Em meio a asfaltos, guias de concreto e obras modernas, a pedra calcária resiste, junto com ruas ainda pavimentadas com paralelepípedos.
Nesse caso, favorecida, a cidade, pelo progressivo desgaste do asfalto em várias ruas tanto da parte alta quanto da parte baixa da urbe pessoense. Digo favorecida porque considero positiva o achado da pavimentação de paralelepípedos.
Essas coisas acabam lembrando que João Pessoa é uma cidade de mais de quatro séculos, construída pedra a pedra, sem que o moderno tenha conseguido apagar totalmente o que veio antes.
Os meios-fios de pedra calcárea e os paralelepípedos antigos se prestam a testemunhas físicas silenciosas do antigo tráfego de carroças, dos primeiros bondes, da passagem de gerações.
Esses meios-fios e leitos das ruas terminam fazendo parte do patrimônio cultural da cidade. Não apenas de museus ou de igrejas tombadas, mas no chão do dia a dia, nos cantos de ruas que ainda guardam conformações do passado.
Valorizá-los é também valorizar a memória urbana, reconhecer que a identidade de João Pessoa não se resume a grandes monumentos, mas também a esses detalhes que dão sentido ao espaço vivido.
