Matemática contra a variante Delta ganha modelo computacional

Pesquisadores disponibilizam ferramenta matemática contra variante Delta; interessados ainda podem contar com orientações

Um modelo desenvolvido pelo grupo ModCovid19, que une pesquisadores de algumas das principais universidades brasileiras trazendo contribuições matemáticas para vencer a pandemia, permite simular diferentes variações da doença, incluindo a variante Delta. “Desenhamos um processo para encontrar uma campanha de vacinação ótima, na tentativa de atingir mais rapidamente a proteção da população. Isso é feito a partir de informações epidemiológicas de determinada região como a eficácia da vacina contra a variante que ali é mais comum, a eficácia da primeira para a segunda dose, quantas pessoas ficaram doentes, qual tem sido a necessidade de leitos de UTI”, explica Paulo José da Silva e Silva, professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp.

Um artigo do grupo ModCovid19 assinado por Paulo Silva, Claudia Alejandra Sagastizábal, Luís Gustavo Nonato, Tiago Pereira e Claudio Struchiner ganhou destaque na publicação da PNAS (sigla em inglês para Anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América), em 18 de agosto. Os autores fazem parte do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), que é um projeto Cepid da Fapesp, dirigido pelo professor José Alberto Cuminato, da USP de São Carlos. O trabalho aborda, entre outros aspectos, o tempo ideal e seguro entre as doses para que a vacinação seja realmente eficiente contra o novo coronavírus. “Não é comum matemáticos publicarem na PNAS, que tem apelo mais interdisciplinar e com peso científico muito forte. Isso nos deixou bastante contentes”.

Segundo o professor do IMECC, a publicação na PNAS mostra que seu grupo conseguiu usar uma matemática de alto nível e, ao mesmo tempo, atacar um problema relevante e atual. “O timing é muito importante num processo como este. Conseguimos responder a uma pergunta urgente na época em que escrevemos o artigo, em fevereiro: se era uma boa ideia ou não adiar a segunda dose contra a variante Alfa e, adiando, aumentar a cobertura em primeira dose de uma população. Mostramos que naquelas circunstâncias originais era, sim, uma boa ideia, confirmando algumas decisões tomadas por governos como da Inglaterra e mesmo governos do Brasil. E a demonstração do impacto disso foi outro aspecto interessante do nosso estudo.”

Claudia Sagastizábal, pesquisadora do IMECC e do CeMEAI, considera que a ferramenta denominada RobotDance, desenvolvida pelo grupo ModCovid19, é uma demonstração importante de como a matemática pode contribuir em situação de pandemia. “O grau de abstração da modelagem matemática permite representar uma realidade de maneira geral, não muito específica, de modo que agora, por exemplo, resulta possível incorporar o efeito de novas cepas no avanço da transmissão e da pandemia na sociedade. Isso é feito de maneira relativamente simples. É claro que há um trabalho a ser realizado, mas um aspecto importante da matemática é que ela não está baseada em achismos, e sim em ciência dura e reproduzível.”

A propósito, a pesquisadora informa que a ferramenta computacional está em repositório de código aberto, podendo ser acessado por todo interessado, que ainda contará com orientações do grupo. “Estamos dispostos a ajudá-lo, pois a ferramenta não é específica a uma região do estado de São Paulo ou apenas de Campinas. Tendo os dados epidemiológicos de outra região, é possível fazer o mesmo tipo de análise: de como vai evoluir a transmissão da doença, se exige certa campanha de vacinação, se aplicamos testes ou alguma medida de distanciamento social. O programa também sugere a melhor medida em termos de política pública; o fato de ter esta predição para as próximas semanas, dá ao gestor a possibilidade de preparar a melhor resposta para que não chegar a situações tão trágicas como o colapso das UTIs.”

Campanhas para agora e o futuro

Paulo Silva salienta que o modelo desenvolvido no grupo ajuda a desenhar campanhas de vacinação, seja na pandemia como a de agora, seja em outra ocorrência no futuro. Sobre a Delta, ele observa que o artigo foi escrito em fevereiro, quando esta variante ainda era muito pouco conhecida. “Não tínhamos informações à época, sobre como as vacinas se comportavam com a variante Delta. No artigo analisamos diferentes cenários para a AstraZeneca, para uma janela para segunda dose de até três meses, e considerando a quantidade limitada de doses.”

O pesquisador da Unicamp afirma que toda a gama de possibilidades analisada no estudo, com base em algumas projeções recentes, também se aplica à Delta. “O modelo pode predizer se a Delta exige outra estratégia de intervalo entre doses. Li que a eficácia da primeira dose para essa variante parece ser menor, de aproximadamente 30%, e que na segunda salta para 70%. Nesse contexto, não valeria a pena postergar a segunda dose, e sim aplicá-la o mais rapidamente possível para garantir a segurança desta população.”

Segundo Silva, isso só se aplica a países onde a Delta é a cepa predominante, o que ainda não acontece no Brasil. “A análise para o país é mais complicada, pois deve-se levar em conta várias cepas que estão competindo de maneira significativa, sobretudo a Gama e a Delta. Mas se daqui a um mês a Delta estiver predominando, como em outros lugares do mundo (a 90%), provavelmente vamos passar a analisar esta variante. Se nos derem bons números de como a vacina se comporta com a Delta, conseguiremos analisar inclusive o impacto quantitativo que vai ter a doença.”

O pesquisador é de opinião que todos os modelos matemáticos aplicados na Inglaterra chamaram a atenção das autoridades, que foram alertadas, já no início da pandemia, para a nova doença muito transmissível atacando uma população completamente vulnerável. “Essa mistura de fatores iria gerar uma demanda por serviços de saúde impossível de ser oferecida pelos governos. Conforme viam as projeções se concretizando, as autoridades conseguiam tomar decisões duras de distanciamento social, que certamente pouparam muitas pessoas durante o processo de pandemia.”

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Com informações da Unicamp 

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